Nestes últimos dias, o temor de uma greve dos caminhoneiros voltou ao radar do mercado e fez com que o governo lançasse uma ofensiva em diversas frentes para evitá-la, assim como os seus consequentes custos políticos e econômicos em um ano eleitoral. Entre as medidas, estão endurecimento da fiscalização do cumprimento do frete mínimo e uma investida junto a Estados na tentativa de reduzir o ICMS sobre combustíveis.
Com isso, analistas de mercado passaram a traçar paralelos com maio de 2018, quando houve uma greve dos caminhoneiros durante 10 dias que provocou uma abrupta interrupção no fornecimento de insumos e bens finais na economia. Por alguns dias, as cidades esvaziaram, por falta de combustível nos postos
A XP Investimentos aponta que o impacto na economia foi rápido, tanto na inflação quanto no PIB. O célere equacionamento do problema fez com que parte do impacto na inflação fosse temporário: a elevação expressiva no IPCA de junho foi compensada por deflação em agosto.
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Em 2018, a abrupta redução no transporte de insumos e bens finais provocou um salto nos preços, capturado pelo IPCA de junho, avalia a XP. A projeção preliminar para o IPCA do mês (antes da paralisação, em abril) indicava alta de 0,22%, enquanto o resultado efetivo mostrou aumento de 1,26%. Ademais, o número de julho ficou um pouco mais alto do que o esperado inicialmente, em 0,33% (versus 0,22% na expectativa mediana de abril). Com isso, a inflação acumulada em 12 meses passou de 2,76% em abril para 2,85% em maio e 4,39% em junho.
Em 2018, entre os dias 18 e 30 de maio, dias da greve, as ações da Petrobras registraram as quedas mais acentuadas, com baixas de cerca de 26% para as duas classes de ativos – PETR3 e PETR4 -, por conta principalmente da pressão sobre a política de preços de combustíveis da estatal.
Voltando para os dias atuais, o BBI vê o risco de greve de caminhoneiros como menor do que no começo da semana, mas segue monitorando o cenário.
O BTG Pactual destaca alguns fatores a serem levados em conta para o atual avanço dos preços do diesel. O banco ressalta que, com cerca de 40% da oferta de diesel exposta à paridade de importação (30% importações + 10% refinarias privadas), o repasse de preços ao consumidor tem sido rápido, comprimindo margens dos caminhoneiros e reacendendo preocupações sobre a possível greve. A Petrobras, responsável por cerca de 70% da oferta doméstica, está atualmente precificando o diesel com desconto de cerca de 30% em relação à paridade de importação (IPP). Esse desconto tem desincentivado importações por distribuidores regionais (dado o risco de prejuízo), levando-os a priorizar suas quotas junto à Petrobras.
Na visão do BTG, isso gera incerteza de curto prazo na oferta. Embora a Petrobras possa atuar como “fornecedor de última instância”, espera que a companhia: (i) siga sua política de preços, e (ii) eventualmente direcione volumes importados via leilões ou busque compensação do governo. Ainda assim, o cancelamento recente de leilões aumenta a incerteza no curto prazo.
Em última análise, o banco acredita que a Petrobras continuará aderindo à sua política de preços, e considera improvável que a companhia importe combustível a preços mais altos apenas para vendê-lo a preços mais baixos no mercado doméstico, a menos que haja alguma compensação por parte do governo.
Na mesma linha, o Goldman Sachs segue com a visão de que a atual governança da estatal deve proteger a empresa de qualquer interferência potencial. “Ao mesmo tempo, reconhecemos o risco de uma greve, e o fato de o mercado parecer permanecer bem abastecido (conforme destacado por nossas verificações de mercado) deve reduzir, em certa medida, qualquer urgência para um potencial aumento de preço”, aponta.
Transportes
O Goldman Sachs fez uma análise para as concessões pedagiadas, caso de Motiva (ex-CCR; MOTV3) e a Ecorodovias (ECOR3), observando que cerca de 52% do tráfego total é composto por veículos pesados que seriam diretamente impactados por tal greve. Contudo, reconhece que veículos leves também poderiam ser afetados caso o fornecimento de combustível (geralmente fornecido pelos caminhoneiros) seja interrompido momentaneamente.
Olhando para 2018, o tráfego no segundo trimestre de 2018 tanto na Ecorodovias quanto na Motiva caiu 5% em relação ao mesmo período do ano anterior (o tráfego comercial caiu 6% e o tráfego de veículos leves caiu 4%, em média). Durante a greve de 8 anos atrás, os eixos suspensos foram isentos de cobrança por duas semanas (de 21 de maio a 3 de junho), conforme exigido pelos caminhoneiros. Essa isenção acabou levando a um rebalanceamento contratual para as concessionárias de rodovias pedagiadas.
“Em suma, permanecemos atentos a possíveis desdobramentos e, embora não tenhamos opinião formada sobre a probabilidade de uma greve, caso ela ocorra, esperamos que o tráfego se recupere relativamente rápido em seguida”, aponta o Goldman.
Alimentos
O Bank of America, por sua vez, avaliou os efeitos de uma possível greve para o setor de bebidas e alimentos.
Os analistas apontam que os dados de produção industrial mostram uma queda de 10% na produção de alimentos em maio de 2018 em relação ao mês anterior, seguida por uma recuperação de apenas 2% em junho. A produção de bebidas caiu 7% em maio e recuperou 6% em junho, enquanto a de bebidas alcoólicas caiu 8% em maio e aumentou 8% em junho.
A cadeia de suprimentos de frango foi o segmento mais afetado dentro do setor de proteínas. O acesso restrito à ração resultou em maior mortalidade do lote, e as interrupções logísticas limitaram o transporte de aves vivas para os abatedouros. A BRF (atual MBRF-MBRF3) e a Seara (subsidiária da JBS – JBSS32) também relataram um mix de vendas mais fraco em alimentos processados durante o período da greve, juntamente com menores volumes de exportação de frango e carne suína. Segundo a ABPA (Associação dos Produtores de Aves), as perdas do setor totalizaram R$ 3 bilhões. A BRF reportou um impacto de R$ 75 milhões (2,8% do EBITDA, ou lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, de 2018), enquanto a Seara registrou perdas de R$ 112 milhões (7,5% do seu EBITDA de 2018).
No setor de carne bovina, a Minerva (BEEF3) reportou uma redução de 6,3 pontos percentuais nas taxas de abate no 2T18 devido à greve, mas a empresa conseguiu mitigar o impacto aumentando a utilização da capacidade em suas operações no restante da América do Sul. Além disso, os preços do gado caíram em uma porcentagem de um dígito médio durante a greve, mas se recuperaram em junho.
Já o impacto sobre bebidas e alimentos embalados foi em grande parte temporário, impulsionado principalmente pela redução dos estoques nos pontos de venda, seguida por uma recuperação nas vendas no mês seguinte. A Ambev (ABEV3) reportou um impacto negativo de 300 pontos-base no volume de vendas durante a greve, mas conseguiu recuperá-lo totalmente em junho, impulsionado pela demanda da Copa do Mundo. M. Dias Branco (MDIA3) e Camil (CAML3) também observaram uma desarticulação dos volumes de vendas dentro do trimestre.
A Raizen (RAIZ4) reportou perdas de R$ 200 milhões devido à greve (7% do EBITDA da distribuição de combustíveis no ano fiscal de 2019), em função dos menores volumes e das vendas de diesel com desconto. A SLC (SLCE3) mencionou atrasos nos embarques de grãos, que foram gradualmente retomados após o fim da greve. A empresa possuía capacidade de armazenamento, o que mitigou os efeitos; porém, o BofA pode observar custos de frete mais elevados afetando outros produtores.
Fonte: infomoney


